Liberdade, igualdade, fraternidade

 Liberdade, igualdade, fraternidade

 

                                                                      Por Michael Lowy*

 

 Pierre Mouterde tem razão em dizer que o conceito de esquerda se origina na Revolução Francesa. Ela nasce do debate sobre as prerrogativas do monarca Luís XI, chamado de “Senhor Veto” pelos sans-culottes. Estes – representantes do povo favoráveis à democracia e à soberania popular, e contrários ao direito de veto do rei – tomavam assento à esquerda do presidente da Assembléia. Hoje em dia, podem ser considerados autenticamente de esquerda aqueles que, na América Latina e em outros lugares, são os herdeiros desse combate e lutam contra os poderes exorbitantes dos novos “Senhores Veto” do planeta: os mercados financeiros, as multinacionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Casa Branca, entre outros.

 

A esquerda de 1789-1794 lutava por três ideais revolucionários: liberdade, igualdade, fraternidade. Como observa Ernest Bloch, em seu livro Droit naturel et dignité humaine (Paris, Payot, 1976, pp. 177-179), embora esses princípios tenham sido inscritos pela classe dominante na fachada dos prédios públicos na França, esta nunca os concretizou. Na prática, escrevia Marx, eles foram muitas vezes substituídos pela cavalaria, infantaria e artilharia. Fazem parte da tradição subversiva do inacabado, do “ainda não existente”, das promessas não cumpridas. Abrigam uma força utópica concreta que “vai além do horizonte burguês”, uma força de dignidade humana que contempla o futuro, o “marchemos de cabeças erguidas” da humanidade rumo ao socialismo (ibid). Se observarmos esses valores de perto, do ponto de vista das vítimas do sistema, descobriremos seu potencial explosivo e como são atuais no combate de hoje na América Latina.

 

O que significa “liberdade”? Acima de tudo, liberdade de expressão, de organização, de pensamento, de crítica, de manifestação – duramente conquistada por séculos de luta contra o absolutismo, o fascismo e as ditaduras -, mas também, e hoje mais do que nunca, liberdade em relação a uma outra forma de absolutismo: aquele da ditadura da elite dos banqueiros e dos dirigentes de empresas multinacionais, que impõem seus interesses a todo o planeta. Uma ditadura imperial – sob a hegemonia econômica, política e militar dos Estados Unidos, única superpotência global – que se esconde por detrás de anônimas e cegas “leis do mercado” e cujo poder mundial é bem superior àquele do Império Romano ou dos impérios coloniais do passado. Uma ditadura que se exerce pela lógica do Capital, mas que se impõe com a ajuda de instituições profundamente antidemocráticas, como o FMI ou a OMC, e sob a ameaça de seu braço armado, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). O conceito de “libertação mundial” é insuficiente para traduzir a idéia desse sentido atual de liberdade, que é, ao mesmo tempo, local, nacional e mundial, como tão bem demonstrou o movimento extremamente original e inovador que é o zapatismo.

 

O que quer dizer “igualdade”? Nas primeiras constituições revolucionárias, inscreveu-se a igualdade perante a lei. Esta é absolutamente necessária – embora longe de existir na realidade da América Latina de hoje -, mas muito insuficiente. O problema de fundo é a mostruosa desigualdade entre o Norte e o Sul do planeta e, em cada país, entre a pequena elite, que monopoliza o poder econômico e os meios de produção, e a grande maioria da população, que vive de sua força de trabalho, quando não está desempregada e excluída da  vida social. Os números são conhecidos: quatro cidadãos dos Estados Unidos da América – Bill Gates, Paul Allen, Warren Buffet e Larry Ellyson – concentram em suas mãos uma fortuna equivalente ao produto interno bruto (PIB) de 42 países pobres, cuja população totaliza 600 milhões de habitantes. O sistema da dívida externa, a lógica do mercado mundial e o poder ilimitado do capital financeiro levaram, nos últimos 20 anos, a um agravamento dessa desigualdade. A exigência de igualdade e de justiça social, dois valores inseparáveis, inspira os numerosos projetos socioeconômicos alternativos que estão na ordem do dia. Em uma perspectiva mais ampla, isso implica um outro modo de produção e de distribuição.

 

O que quer dizer “fraternidade”? É a tradução moderna do velho princípio judaico-cristão, que apregoa o amor ao próximo. Substituem-se as relações de competição, de concorrência feroz, de guerra de todos contra todos – que fazem do indivíduo, na sociedade atual, um homo homini lupus – por relações de cooperação, partilha, ajuda mútua, solidariedade. Uma solidariedade que não engloba apenas os irmãos (frater em latim), mas também as irmãs, e que ultrapassa os limites do clã, da tribo, da etnia, da comunidade religiosa, que ultrapassa o âmbito da família, da nação, para se tornar autenticamente universal, mundial, internacional, em outras palavras, internacionalista, no sentido atribuído por gerações inteiras de militantes do movimento operário e socialista.

 

A civilização com a qual sonha a esquerda radical latino-americana é “um mundo no qual cabem outros mundos” (segundo a bela fórmula dos zapatistas), uma civilização mundial da solidariedade e da diversidade. Frente à homogeinização mercantil e quantitativa do mundo, frente ao falso universalismo capitalista, é mais importante do que nunca reafirmar a riqueza representada pela diversidade cultural e a contribuição única e insubstituível de cada povo, cada cultura, cada indivíduo.

 

* Michael Lowy é um sóciólogo brasileiro radicado na França, autor de várias obras publicadas em diversos países, que o tornaram conhecido como um dos maiores estudiosos do marxismo em nossos dias.    

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Sobre Glauber Gularte Lima

Vereador, professor, candidato a prefeito do município de Santana do Livramento / RS / Brasil.
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