Deserto Verde

Eucaliptando – I

 

Existe uma ladainha hoje no Rio Grande do Sul, infelizmente compartilhada por alguns setores que se dizem de esquerda, que é a de que a monocultura de eucaliptos seria a redenção para a empobrecida Metade Sul. As empresas Stora Enzo, Votorantin Celulose e Aracruz, por absoluta abnegação, estariam dispostas a investir milhões de dólares para ajudar o pobre povo do Rio Grande a sair da crise em que se meteu.

 

Infelizmente, esse é mais um assunto onde não há debate. Existe uma posição fechada assumida pelo governo Yeda, de transformar a metade do território do estado em uma uniforme e assassina lavoura de eucaliptos. Essa posição é compartilhada por todas as entidades patronais do Estado e pela mídia monopolista, capitaneada pelo grupo RBS.

 

A tentativa levada a cabo pelo Ministério Público Estadual, de fazer o debate regionalizado do projeto de Zoneamento ambiental – regramento mínimo legal a buscar conter a voracidade destruidora das papeleiras, que não estão nem aí para a biodiversidade, e que foi rasgado pela dona Yeda para abrir as porteiras de forma ilimitada para essas indústrias – foi um vergonhoso fracasso.

 

Aqui na região, a audiência foi realizada em Alegrete. O advogado Luis Claudio Quevedo resolveu dar uma xeretada, e para lá se dirigiu. Não conseguiu entrar. O clube onde era realizada a audiência estava lotado. Mas não era pela sociedade fronteiriça, ávida de informações prós e contras para tomar uma posição. Eram os pelegos da Força Sindical, quer alugaram vários ônibus e foram a todas as audiências, devidamente fardados com bonés e camisetas pró-multinacionais.

 

São os mesmos que promoveram na semana passada um debate em parceria com o governo de reconstrução, do senhor Wainer Machado, com o gracioso nome de “Seminário sobre o Bioma Pampa”, ou algo parecido, que contém uma idéia de cuidado com a sua preservação.

 

Essa questão, pra nós de Livramento, não é nova. A monocultura de eucaliptos já é uma realidade no outro lado da fronteira, em Rivera, há muito tempo. Quem for à região do Itaquatiá, poderá ver, nos fundos do assentamento Roseli Nunes, um imenso cinturão de eucaliptos já adultos. O que será difícil vislumbrar é mulheres e homens trabalhando no local. É de fato um deserto verde, de seres humanos e demais espécies vivas. Não se houve o cantar de um único pássaro, e as espécies vegetais nativas desaparecem a olhos vistos.

 

Isso eu não aprendi nos livros, mas na experiência in loco, real, do que significa o projeto dessas papeleiras. O que não quer dizer que eu seja contra o eucalipto em si, que há muito tempo está incorporado à nossa paisagem rural, sendo utilizado para lenha ou produção de moirões. Uma coisa é a espécie ser parte de um todo, outra coisa é ela ser o todo às custas da destruição das demais espécies animais e vegetais. Há uma grande diferença nos dois modelos.

 

Analisei com muito cuidado todos os argumentos utilizados pelos defensores da monocultura de eucaliptos, chamada eufemisticamente de florestamento. Não existe um único deles que sobreviva a um debate sério, quer seja do ponto de vista econômico, social, ou ambiental. A bem da verdade, o que está por trás disso tudo, como sempre em negócios dessa natureza, são milhões de dólares que essas empresas faturarão às custas da destruição do bioma pampa.

 

Mais uma vez o poder político conservador e o monopólio midiático, turbinados pelo patrocínio milionário de empresas multinacionais, impõem os seus interesses em nome da sociedade gaúcha. Até quando?

 

Sobre Glauber Gularte Lima

Vereador, professor, candidato a prefeito do município de Santana do Livramento / RS / Brasil.
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