Deserto verde

 

Eucaliptando – II

 

O enigma da paixão pelas papeleiras

 

É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios.

(…)

O enigma tende a paralisar o mundo.

 

                                                                                                                                                                   CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

                                                             

Existe um documento que é elucidativo a respeito dos verdadeiros interesses da tropa de choque da eucaliptagem: as prestações de contas dos candidatos às eleições do ano passado, registradas no Tribunal Superior Eleitoral. Ali se pode observar, por exemplo, que a então candidata ao governo do estado, Yeda Crusius, recebeu por vias legais módicos 825 mil reais e alguns quebrados das empresas de celulose. Isso significa um quarto do valor da sua milionária campanha de mais de três milhões e meio de reais. Imaginem o que deve ter entrado por fora, através do famoso caixa dois.

 

Já alguns dos deputados que hoje fazem a cruzada em prol do florestamento, tiveram parte de suas campanhas financiadas por essas empresas. O deputado Berfran Rosado, que publica panfletos e folders anunciando a redenção da Metade Sul através dos projetos dessas multinacionais, recebeu da Aracruz e da Votorantin cerca de 39 mil reais. Por sua vez, os deputados Vieira da Cunha (PDT), Edson Brum (PMDB), José Sperotto (PFL), Marco Peixoto (PP) e Pedro Wesphalen (PP), apenas para citar alguns, receberam 156 mil, quatrocentos e setenta e seis reais em doações.

 

Ao todo, as empresas doaram cerca de um milhão e meio de reais para 75 candidatos a deputado e governador na última eleição. Pelo menos em doações registradas no TSE. O que foi doado por fora, ninguém, além dos candidatos e alguns arrecadadores de dinheiro para as campanhas, jamais saberá. Mas pelo volume de estrutura de algumas candidaturas, percebe-se que não foi pouca coisa.

 

Essa é a chave do enigma. Esses valores explicam a paixão desenfreada da governadora e de alguns deputados pelas papeleiras. Além de ficarem com o rabo preso, não podendo criticá-las, sob o risco de terem esfregado na cara um documento provando que foram por elas financiados, preservam uma nobre relação para o futuro. Novas campanhas, novos financiamentos e novas cruzadas em defesa do Rio Grande.

 

Nisso estamos. O estado da federação que um dia foi o celeiro do país, caminha a passos céleres para se transformar em um deserto verde. E lamentavelmente a maioria do povo do Rio Grande, que habita um outro espaço geográfico que não o do pampa, sequer consegue compreender o que está em jogo.

 

O próximo passo das multinacionais será tentar derrubar no Congresso Nacional a lei que proíbe a compra de terras por empresas estrangeiras em áreas de até 150 Km de distância de linhas de fronteira. Sob a alegação de que essa é uma lei ultrapassada, do tempo da ditadura (1979), o deputado Nelson Proença (PPS) quer derrubá-la.

 

A lei ultrapassada é modesta se comparada a outras de países do centro do capitalismo mundial, em matérias relacionadas à soberania nacional. Perguntem ao deputado se ele tem conhecimento de como são as regras para aquisição de terras por estrangeiros no templo da economia de livre mercado, os Estados Unidos da América. Lá, em alguns estados, é preciso que o estrangeiro se naturalize, ou que resida no país há mais de cinco anos. Em outros casos, existe a obrigação do estrangeiro de elaborar relatórios das aquisições à Secretaria da Agricultura. Até mesmo o México, que foi saqueado pelo neoliberalismo à época de Vicente Fox e seus lacaios, possui uma lei que condiciona a compra de terras por estrangeiros a uma autorização dada pela Secretaria de Relações Exteriores.

 

Ao contrário do que afirma o ex-secretário de assuntos internacionais do governo Britto, a nossa lei é permissiva demais. Tanto que possibilitou que até 2001 o Rio Grande já tivesse 400 mil hectares de terras nas mãos de multinacionais da celulose.

 

De acordo com o projeto de futuro das três empresas que vieram para o estado, nos próximos anos teremos a pequena extensão de um milhão de hectares de terras do bioma pampa transformadas em deserto verde. Terras gaúchas que passarão a ser propriedade dos piratas da era moderna, em nome do progresso e do futuro do povo do Rio Grande. Esse é o “novo jeito de governar”.  

 

 

 

Sobre Glauber Gularte Lima

Vereador, professor, candidato a prefeito do município de Santana do Livramento / RS / Brasil.
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Uma resposta para Deserto verde

  1. Unknown disse:

    Os problemas que vocês estão enfrentando com os eucaliptos, assemelha-se ao nosso aqui no Estado de São Paulo com a  monocultura da cana de açucar. Aqui temos o agravante das queimadas, que joga na atmosfera gases prejudiais a saúde e ao meio ambiente, assassina animais e adoece pessoas: crianças e idosos.
    Nossa região José BOnifácio a  50 km de São Jose do Rio Preto está sendo tomada por essa cultura nociva ao meio ambiente, fauna e flora e humana. São atitudes que vem de encontro até a Constituição Brasileira. É um enigma!!!! 
    Vou linkar seu blog no  http://aldeia.mundus.zip.net    e no  http://fontevida.weblogger.terra.com.br , se houver alguma objeção favor me comunicar, OK. Fico feliz que nao estamos sozinhos na luta a favor do meio ambiente. 
     
    Gostaria da sua autorização para publicar no meu  BLog os artigos  sobre eucaliptos acho que a carapuça pode servir a muita gente , e intimidar os futuros candidatos a aceitarem doações  das Usinas. 

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