Latifúndio e crise econômica

Os donos da terra e a disputa pelo poder local

 

Um dos obstáculos para a retomada do desenvolvimento econômico de Livramento é a sua estrutura fundiária, ou seja, a forma como está distribuída a posse da terra. Ela é caracterizada pela concentração desse meio de produção fundamental nas mãos de uma minoria.

 

Para termos uma idéia clara do que estamos falando, observemos alguns números oficiais. De acordo com dados do escritório regional da Emater, Livramento possuía em 2003 exatamente 3.218 propriedades rurais. Desse total, apenas 185 propriedades, ou seja, 5,7% delas, ocupavam modestamente 54% da área total do município. Mais da metade do território santanense.

 

Isso é o que se denomina conceitualmente de latifúndio, concentrador de terra e renda, fator de esvaziamento do meio rural, e entrave para um processo de desenvolvimento econômico. Aliás, não há um único lugar hegemonizado pela orientação política dessa burguesia agrária que não esteja atolado em uma crise econômica. O modelo faliu, e sobre as suas ruínas precisamos construir o novo.  

 

Por outro lado, temos 2.357 propriedades, que representam 73% delas, ocupando apenas 9,1% da área total do município. A maioria são pequenos e médios pecuaristas, alguns praticamente inviabilizados pelo tipo de uso que fazem da terra.

 

Esse público, cuja maioria está sob o guarda-chuva político e cultural do latifúndio, pode e deve ser parceiro de um novo projeto de desenvolvimento econômico rural. Para tanto, é preciso constituir um bloco político e social que unifique as maiorias do campo e da cidade em torno do novo projeto. Suas principais lideranças terão o desafio de, gradativamente, provar e convencer a pelo menos parte desse público sobre a verdade dos fatos. E essa verdade, é que o Sindicato e Associação Rural, templo do latifúndio decadente, nunca os representou e nunca os representará. Apenas os utiliza para preservar seus interesses de classe dominante agrária.

 

Da mesma forma, também é preciso definitivamente superar o discurso rançoso do passado, quando todos, indiscriminadamente, eram taxados por alguns setores esquerdistas de “gigolôs de vaca”. Temos a responsabilidade de apresentar-lhes novas alternativas para o uso de suas propriedades, e chamá-los ao compromisso de serem agentes de uma mudança gradativa e profunda de nossa matriz produtiva. Essa mudança, no tempo, beneficiará a todos, ao incorporar às propriedades outras atividades rurais vinculadas às novas vocações agropecuárias.

  

A burguesia agrária já demonstrou que não possui compromisso nenhum com Livramento. Permitiu que o frigorífico Armour fosse vendido a preço de banana para sucateiros, e até hoje não reabriu o frigorífico São Paulo porque não quer tirar um centavo do bolso. Aguarda algum dinheiro público, como sempre.

 

Enquanto isso, quem perde com a situação? Os pequenos e médios pecuaristas, que giram com um capital pequeno, ficando à mercê de compradores de outras regiões. Para esses, o latifúndio não está nem aí. O vereador César Maciel (PSDB) é a expressão política dessa farsa. Quando convém, discursa de forma genérica para o produtor rural, como se fosse uma categoria econômica homogênea. Mas na verdade, na sua concepção, produtor rural nunca deixou de ser a minoria com quem compartilha esse poder secular.

 

A crise é para a classe trabalhadora assalariada e os setores médios. Existe uma minoria em Livramento para a qual nunca há crise. Estão cada vez melhor, ostentando nas ruas da cidade os benefícios da crise do setor primário. É essa minoria, arrogante, atrasada culturalmente, feroz na defesa mesquinha de seus interesses, que precisa ser politicamente derrotada. O seu lugar é a prateleira dos museus, porque representa um tempo e uma mentalidade que não dialogam mais com as angústias e as necessidades reais de nosso povo.

 

 

Sobre Glauber Gularte Lima

Vereador, professor, candidato a prefeito do município de Santana do Livramento / RS / Brasil.
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Uma resposta para Latifúndio e crise econômica

  1. Elder disse:

    Gostei muito do texto, principalmente da conclusão. Estou fazendo um trabalho sobre estrutura fundiária brasileira, e ele me ajudou a entender mais o problema. Obrigado!

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